5/28/2008
CADÊ O MUNDO ONDE EU NASCI?
É difícil olhar para os meus semelhantes e aceitar suas justificativas para as mudanças.
"Hoje todo mundo é assim", me diz um cara que eu tinha em alto conceito. Não acredito. Até tu, Brutus?!
Buscar respostas para esse fenômeno é caminhar mais rapidamente para a depressão, mas é quase inevitável.
Há algum tempo encontrei um sujeito que não via há anos. Ele se mostrou extremamente simpático e feliz ao me ver, e me disse que precisava dos meus serviços. Que bom! Não é todo dia que acontece isto. Dei a ele o meu cartão (ele estava sem os dele) e combinamos que ele me enviaria os detalhes do que precisava. Mas, o tempo passou e nada recebi.
Alguns dias atrás, meu amigo (aquele mesmo) o viu na academia e meu nome veio à baila.
— Peça ao Mario para aparecer, estou querendo que ele faça aquele serviço - disse o tal. - Ele disse que me procuraria, mas não fez isto.
Opa! Tudo que fiz foi dar a ele um cartão com meu nome, endereço, telefone e e-mail. Fiquei esperando algum sinal de vida, pois este foi o combinado. No entanto, eu já havia sentido que aquele entusiasmo todo não era verdadeiro. Numa outra noite, encontramo-nos no shopping e ele teria passado por mim como se não tivesse me visto, se eu não o abordasse. Mas, ele nem tocou no assunto.
Tudo bem, o maior interesse é o meu, afinal preciso de trabalho todos os dias.
Telefonei várias vezes, sem sucesso. Ele nunca está. Deixei diversos recados, inclusive com o meu número de telefone, esperando um retorno que não veio. Não desisti, enviei pelo menos dois e-mails, que também ficaram sem resposta, e, como reforço, procurei-o pessoalmente em sua loja. À toa, claro.
Ok, qualquer um me diria para esquecer esse cara. Essas demonstrações não deixam dúvidas de que tudo não passou de uma grande encenação, o sujeito não precisa de nada e, se precisasse, eu não seria sua primeira escolha. Meu amigo prefere dizer que ele é um cara ocupado, que tem outras preocupações mais importantes. Porém, eu acho que até o Presidente da República teria tempo para fazer uma ligação de seu celular e me dar uma satisfação, mesmo que fosse enquanto usa o banheiro. Eu não me importaria.
Então, me pergunto: alguém pode ser tão ocupado a ponto de usar as 24 horas de cada dia para resolver suas prioridades e não ter tempo para fazer uma ligação ou responder um e-mail?
Duvido. Na verdade, esse cara é um dos robôs que foram colocados na Terra para acabar de vez com os valores que cultivávamos no milênio passado, como a boa educação, o respeito e a consideração pelos nossos semelhantes. A função deles é banalizar tudo para que as coisas percam sua importância e implantemos o caos, o ódio, a tristeza, o desencanto, a frieza.
Se deixarmos que isto aconteça, estaremos aceitando o fim do mundo como destino inconteste. Seremos exterminados por essa raça ou nos tornaremos tão pequenos quanto seus exemplares, hoje encontrados nas mais diferentes posições, nos cenários social, comercial e político. Você não crê? Observe. Entre numa grande loja e procure alguém para atendê-lo; ligue para a Telefônica e tente obter alguma informação precisa; faça acordos verbais e verifique se a outra parte os cumpre.
Eles já são milhões!
"Hoje todo mundo é assim", repete meu amigo. Diz isso até quando limpam os pés em sua cabeça. Não importa quantas visitas frustradas ele faça aos seus clientes, quantas horas tenha que esperar para ser atendido, ele está conformado e acha que esse comportamento é normal. "Os clientes são assim mesmo, você tem que fazer tudo por eles."
Apavorado, começo a acreditar que tenho convivido com um robô cuja missão é me convencer de que os outros robôs são seres humanos e eu sou a anomalia.
Mais uma vez, a ficção se tornará realidade?
12/10/2007
Enquanto o mundo se preocupa em preservar a natureza, inclusive metendo o bedelho na nossa política para a selva amazônica, considerada "o pulmão do planeta" (estão errados?), o Brasil vai levando a vida na flauta, e se faz de cego para o desmatamento descontrolado (ou controlado pelas tribos indígenas da região, segundo o Exército) não percebendo que pedaços daquelas árvores são depositados em nossos portões diariamente. São várias turmas, de diferentes empresas, passando todos os dias para deixar material de propaganda dos supermercados e grandes lojas, sem o menor senso de cidadania. Não nos perguntam se queremos ou não receber os folhetos promocionais, simplesmente os enfiam nas grades e vãos das casas como se estivessem nos fazendo um enorme favor.
Os distribuidores vêm com seus aventais-sacolas carregados, fazendo movimentos mecânicos (retira-dobra-enfia, retira-dobra-enfia...) e nem tomam conhecimento da nossa presença quando tentamos intimidá-los. São capazes de, por falta de outro espaço, enfiá-los em nossas bocas! Têm por trás o apoio das empresas que os contratam e dos políticos, que acreditam que aquilo é um emprego (para burro de carga, talvez) e, portanto, não pode ser extinto, pois isto aumentaria o desemprego.

Esses folhetos, além de se transformarem em pasta de papel quando há uma grande chuva, e irem parar nas galerias pluviais, entupindo-as, são um excelente indício de que não há ninguém em casa, quando se acumulam, alertando os ladrões (aqueles caras que não querem nem distribuir folhetos).
Aí você vai ao supermercado e tenta conversar com alguém sobre este problema. Ninguém pode responder por isto, é tudo feito nos escritórios, aos quais não temos acesso. Mas você pode aproveitar e fazer umas comprinhas... Se você comprar, por exemplo, um barbeador descartável ou pilhas, isto virá numa embalagem de papelão e plástico que será colocada numa sacolinha, e você voltará para casa feliz da vida, com mais lixo nas mãos. Pior: usará a sacola (que leva um século para se deteriorar) para colocar mais lixo e ainda agradecerá por tê-la recebido "de graça".
Assim é no cotidiano, mas fica pior quando há o lançamento de um novo empreendimento e durante as campanhas políticas. Você recebe panfletos quando pára num sinal fechado, quando entra ou sai de um shopping ou quando caminha pelas calçadas. É um bombardeio de papel de todos os tipos e tamanhos.
Outro dia, recebi um jornal. Achei estranho, pois não assino mais jornais, leio tudo nos diversos sites que trazem notícias. O jornal vinha numa sacola plástica, junto com um enorme folder anunciando um luxuoso complexo habitacional e era acompanhado um vale-brinde em cartão. Tudo muito caro. "Que idiotas!" - pensei - "Será que não raciocinam?". Moro num bairro popular, minha casa é simples e pequena, e não há um carro, nem mesmo velho, na garagem. Não é preciso ser um gênio para concluir que ninguém por aqui tem condições de adquirir um apartamento de quatro dormitórios, numa área de mais de vinte mil metros quadrados, com infra-estrutura de dar inveja a muitos clubes.
É assim, essas empresas tratam o dinheiro como se fosse o lixo que elas próprias geram. Claro que todo esse desperdício está embutido no preço dos apartamentos e nas taxas de condomínio. O brinde que é dado a cada visitante idem. Alguém paga por isso. E eu me pergunto: quantos mortais têm tanto dinheiro para se tornarem donos de um desses apartamentos? E por que o fazem, senão pela vaidade, por ostentação? Por que são coniventes e também desperdiçam?
São poucas as pessoas que se preocupam em separar o lixo reciclável. Alguns condomínios mantêm recipientes diversos para coletar o que pode ser reaproveitado, mas nem todos os condôminos se lembram de distribuir o lixo em diferentes sacos ou containers. Pura preguiça, dá muito trabalho.
Ok, estou ficando cansativo.
Vamos resumir. Se pararmos de gerar tanto lixo e de desperdiçar tanto, certamente conseguiremos reduzir o custo daquilo que consumimos. Mais gente terá condições de comprar o que hoje lhe falta, talvez até mesmo um lugar para morar. Teremos menos problemas com as usinas de lixo, com a tubulação de águas pluviais e, por mais incrível que pareça, poderemos gerar empregos mais decentes, pois o consumo aumentará, sem que isso provoque impactos inflacionários. Pode ser que o povo, mais feliz, se torne mais educado, aprendendo o que fazer com o lixo, e se interesse em buscar mais conhecimento, e estude mais.
Pensemos a longo prazo: se tivermos um povo mais culto, educado e politizado, nossas chances de termos um Presidente melhor aumentarão muito!
10/03/2006
Orgulho de ser brasileiro

Ele não viu nada, não sabe de nada, nunca ouviu falar de nada do que foi amplamente divulgado pela mídia. Eu vi. Puxa, se vi. E doeu, doeu muito, lá no fundo da alma, porque percebi que todos os ensinamentos morais que recebi foram em vão, pois não é possível praticá-los neste país.
Luiz Inácio fez como o apóstolo Pedro quando foi apontado como um dos que acompanhavam Jesus antes que os soldados o levassem. Negou, aliás, mais de três vezes, que seus asseclas fizessem parte de todas as falcratruas que começaram a ser reveladas com a denúncia sobre o valerioduto, mais tarde revelado como um cano de esgoto. E apesar de sentirmos o mal cheiro e escorregarmos nesse caldo podre todos os dias, disse que não via nada, não sentia nada, não sabia de nada.
Pobre presidente... Falta-lhe bem mais que um dedo. E agora sabemos onde ele o enfiou! Ainda bem que foi o dedo mínimo, o mindinho, que fica ao lado do seu vizinho, antes do pai de todos, que vem antes do fura-bolo e do mata-piolho. Sentimos todos eles, mas Lula não. E sabem por que? Porque temos sido contados como os dedos, um a um, em vez de nos mostrarmos como mão forte e poderosa, como realmente deveríamos ser.
Lula se fez de rogado, não compareceu aos debates políticos, continuou acenando para os fotógrafos como se fosse um astro de Hollywood, como poderoso estadista, consagrado pelos votos da maioria dos brasileiros, dizendo que um presidente não pode se expor. Entretanto, foram poucos os que deram atenção a esses "pequenos detalhes", tão pequenos quanto o dedo mínimo se comparados aos escândalos que tomavam conta dos noticiários. Foi de propósito. Somos um povo benevolente, tolerante e esquecido. Mas convém lembrar que os 21.092.511 (16,75%) eleitores que "se esqueceram" de comparecer às urnas no primeiro turno podem se lembrar de votar no segundo para dizer que estão insatisfeitos com esta situação. Tomara.
É preciso parar para pensar. Foram 18.411.171 votos distribuídos entre brancos, nulos e os candidatos que ficaram fora da disputa pela Presidência da República. Somados aos votos dos ausentes, que deixaram de ser registrados nas urnas, são 39.533.682, ou seja, praticamente o mesmo número de votos que levaram o candidato Geraldo Alckmin ao segundo turno (39.968.369). Isso faz uma enorme diferença.
Ora, por que vamos crucificar Lula? Por que não levar em conta que 46.662.365 brasileiros parecem não ter a menor noção do que está acontecendo neste país? O que lhes falta, afinal? Ainda que parte dessas pessoas tenha sido beneficiada nestes últimos quatro anos, e algumas delas tenham tripudiado sobre nossas cabeças ao dançar no Congresso Nacional (Ângela Guadagnin, do PT) – depois de cansar os colegas com um discurso vazio que durou quatro horas – apenas para alcançar o intuito de evitar a cassação de um "companheiro", e do considerável número de ignorantes que se omite porque acha que política é um assunto complicado, há uma quantidade expressiva de meros preguiçosos que são mais responsáveis(!?) que o presidente. Pode ser que mais tarde esses sejam os primeiros a criticar o governo e aleguem que não foram eles que o elegeram, pois nem votaram!
Será que é só durante a Copa do Mundo que veremos os brasileiros cobertos com as cores da Bandeira Nacional? Será que continuaremos a usar o pendão da esperança apenas como flâmula de um time de futebol? Viveremos o resto de nossas vidas dizendo que o Hino francês é o mais bonito de todos, mesmo depois de um presidente francês (Charles De Gaulle) dizer, em nosso chão, que "o Brasil não é um país sério"? Ninguém se envergonha disso, além de mim?! Onde está o nosso orgulho? De que podemos nos orgulhar se quase metade de nossa população diz, pelo voto, que não viu nada, não sentiu nada, não ouviu nada?
Vai aqui uma frase para meditação: quem agüenta um dedo agüenta dois!
Aqueles que se omitem e aceitam o que vem sendo feito pelo e para o país têm potencial para aceitar mais falcatruas, mais escândalos, mais desemprego, mais abandono, mais juros, mais impostos. Em troca receberão menos dinheiro, menos saúde, menos segurança, menos moradia, menos crédito, menos educação. Com isto se tornarão mais ignorantes, mais alienados, mais subjugados, mais explorados, simplesmente porque não querem ter o trabalho de pensar, de procurar saber o que está acontecendo em volta. Têm medo ou vergonha de exprimir seus pensamentos e de convencer outras pessoas a fazerem isto. Esperam que as coisas aconteçam por milagre, que caiam do céu, que sejam criados novos programas de apoio aos sem-terra, sem-teto, sem-emprego, sem-escola e, especialmente, aos sem-vergonha!
Mas, esperem aí! Para que escrever isto se essas pessoas jamais lerão este texto? Bem, talvez porque você seja a pessoa que eu procurava. E, se for, passará esta mensagem adiante com a certeza de que não somos apenas dois com o mesmo pensamento. Isso fará diferença, acredite. Você vai ver.
Compareça às urnas no próximo dia 29 de outubro e mostre a sua opinião.
7/12/2006
Integrare - Cura ou doença?
Outro dia, um amigo me pediu para que o ajudasse a preparar uma resposta para um e-mail que lhe foi enviado por uma organização não-governamental chamada Integrare, cujos objetivos visam o fortalecimento do que eles denominam “minorias sociais discriminadas”, quais sejam: os negros, indígenas e portadores de deficiências. A Integrare classifica-se como um “Centro de Integração de Negócios” e se diz solidária a outros grupos sociais discriminados que não são foco desta ONG.O e-mail continha instruções para dar seqüência ao processo de credenciamento da empresa desse meu amigo junto àquela organização. Ele, demonstrando forte revolta, pretendia declinar do convite. Mas, mais importante, queria demonstrar sua indignação por sentir-se discriminado, exatamente como os membros que, pela mesma razão, foram levados a criar a Integrare.
Para entender o cenário visitei o site da Integrare e procurei conhecer melhor a organização à qual eu deveria dirigir a mensagem de resposta. Li, por exemplo, que, para se associar, a empresa pretendente deve ter “como sócio(s) proprietário(s) ou majoritário(s) (com 51% ou mais das cotas) uma ou mais pessoas pertencentes a um dos seguintes grupos sociais:” negros, indígenas ou portadores de deficiências.
Não foi difícil preparar a resposta desejada. Apesar de não ter nenhum interesse de participação, senti-me igualmente atingido pelas restrições apresentadas no tópico que descreve os critérios da Integrare, e surpreso, pela coragem de terem documentado sua postura discriminatória, uma vez que isto desafia a autoridade das Leis Federais que consideram a discriminação como crime inafiançável, sujeito a pena de reclusão.
Lembrei-me da Ku Klux Klan, nome conhecido de várias organizações racistas dos Estados Unidos que apóiam a supremacia branca e o protestantismo em detrimento a outras religiões.
A primeira KKK foi criada em 1865 no Tenessee por seis amigos que queriam apenas espantar o tédio. Inicialmente, eles apenas cavalgavam durante a noite importunando os vizinhos, até que a coisa ficou séria, no final da Guerra Civil Americana, quando os Estados do Norte libertaram seus escravos. As cavalgadas passaram a ser uma verdadeira perseguição aos negros, e um ano mais tarde a KKK havia se transformado numa seita assassina presente em diversos estados, com participação até de generais sulistas e financiamento proveniente de agricultores que se sentiram prejudicados pela alforria. Em 1872 o grupo foi reconhecido como entidade terrorista e banido dos Estados Unidos. Outro grupo, porém, foi criado como organização fraternal em 1915 para lutar pelo domínio dos brancos protestantes sobre os negros, católicos, judeus e asiáticos, além de outros imigrantes. Esse grupo ficou famoso pelos linchamentos e outras atividades violentas contra os seus “inimigos”.
A comparação é temerosa: a Integrare tem tudo de uma organização fraternal que congrega grupos com perfis específicos, classificados por características típicas, e impede, declaradamente, a inclusão de quem não as tem, com o claro objetivo de fortalecê-los. É, portanto, incoerentemente, discriminatória. As empresas que a apóiam agem como os agricultores norte-americanos do início do século passado, financiando-os. Os brancos, por conseqüência, tornam-se involuntariamente perseguidos, porque são considerados como “inimigos” nos processos de livre concorrência, num país onde a atitude natural do povo e o regime democrático aceitam com naturalidade a miscigenação, abrindo seus braços a todos os povos do mundo.
A restrição revela-se ainda mais absurda quando olhamos para nossa História. Somos uma Nação gerada principalmente por indígenas, negros (escravos) e portugueses, isto é, somos um inquestionável exemplo de miscigenação, e pouquíssimos de nós não têm nas veias a mistura de sangue negro ou indígena, ou casos de pessoas deficientes na família. Como cidadãos, deveríamos entender a responsabilidade de todos os brasileiros, independentemente de nossas origens, em contribuir para que o país desenvolva todo o seu potencial e alcance posição mais confortável no inevitável processo de globalização, investindo no fortalecimento de parcerias internas e no aprimoramento de nossas qualidades individuais.
Ao fechar o ingresso de empresas constituídas apenas por “brancos” em seu quadro de associados, a Integrare contradiz seus próprios princípios e reivindicações. Aliás, faz isso também por manter em seu Conselho um ou mais brancos, funcionários de empresas conceituadas que, talvez, sem precisar passar pelo processo de aprovação, cadastraram seus próprios fornecedores sem investigar a etnia de seus quadros societários, à revelia.
Não podemos nos omitir diante desta afronta, nem aceitar que os incapazes se escondam sob o manto da hipocrisia e usem o escudo protecionista de uma organização para enfraquecer os que labutam com honestidade e qualificação suficientes para conquistar a preferência do mercado.
Há inúmeros exemplos de figuras notáveis, de pele escura ou vermelha, que jamais enfrentaram qualquer dificuldade de acesso, trânsito ou convivência, simplesmente porque não se sentiam menores. E devem ser imitados.
Com tais demonstrações, a Integrare condena-se à repúdia da chamada “maioria branca” e reforça a impressão de serem especialmente os negros e indígenas os maiores responsáveis pela manutenção do aparteid brasileiro, a discriminação inversa que resiste desde a proclamação da Lei Áurea.
4/07/2006
Novo fenômeno no trânsito das grandes cidades
Há algumas décadas, ao ser entrevistado pela equipe de um telejornal sobre a violência nas estradas e o comportamento da classe, o então presidente do Sindicato dos Caminhoneiros declarou que era assim porque a sociedade deixou que eles ganhassem esse espaço. Ninguém quis ouvir aquele recado. Os anos se passaram, o trânsito das cidades ficou pior e as empresas, para sanar suas dificuldades com o transporte de malotes e outros serviços que dependiam de locomoção, encontraram como solução o uso de motos.Ninguém pensou que isto poderia trazer conseqüências tão graves, provavelmente porque se esqueceram de considerar que para conduzi-las seriam necessários os motoqueiros, que são, segundo os que se dizem os motociclistas, uma categoria à parte.
Os motoqueiros decretaram que o corredor entre as duas faixas de maior velocidade das grandes avenidas é exclusiva para a circulação de motos. Aos motoristas é proibido mudar de faixa sob pena de ter o retrovisor do carro arrancado ou o capô amassado. Eles também instituíram ao toque insistente daquelas buzininhas ridículas a importância das sirenes de carros oficiais e ambulâncias para avisar que estão chegando e devemos lhes dar passagem. E, contrariando o que diz a lei, usam esses carros privilegiados como abre-alas, seguindo-os de perto quando nos forçam a pôr em risco nossos veículos junto à proteção central das marginais.
Os motoqueiros são extremamente solícitos. Entre eles. Basta que encontrem uma moto parada ao lado do seu carro para que um bando se reúna em volta dele em questão de segundos. É difícil escolher o melhor procedimento neste caso. Se você ficar no carro, eles quebram; se sair, eles batem; se correr, eles perseguem. Não têm tempo para perguntar, querem fazer suas coletas e entregas o mais rapidamente possível para logo iniciar outra corrida.
Os motoqueiros e caminhoneiros não são maus em sua essência. São seus veículos que os transformam. É mais ou menos como acontece com Clark Kent: só é violento quando tira os óculos e veste aquela roupinha colante. No Planeta Diário o herói é um doce de pessoa e chega a passar por medroso.
A polícia e os agentes de trânsito que trabalham nas ruas têm visão restrita, só enxergam os chamados “veículos de passeio”, uma terminologia que, diga-se de passagem, confunde a mente dos caminhoneiros. Eles pensam que todos nós estamos passeando o tempo todo, ainda que seja um dia de trabalho e durante o horário de expediente. Para sua sorte, a maior parte das multas urbanas é aplicada para esses pequenos estorvos que se acumulam no mesmo asfalto.
Motorista de caminhão pode andar sem cinto de segurança. Motoqueiro também. Motorista de carro de passeio não.
Se um caminhão quer mudar de pista é só avançar sobre os carrinhos que estão ao lado. Não precisa nem ligar o pisca-pisca. Os motoqueiros têm o mesmo direito. Se acontecer qualquer coisa, “quem pode mais chora menos”.
Para resumir, este fenômeno é mais um resultado da força da união. Se alguma coisa não for do agrado dos caminhoneiros, eles são capazes de parar o trânsito numa rodovia, como já fizeram para protestar contra o aumento dos pedágios. Se os motoqueiros se sentirem prejudicados, poderão fazer o mesmo. Basta visitar a cidade de Aparecida do Norte no dia da procissão deles para se ter uma idéia disto.
Nós, motoristas dos carros de passeio, somos desunidos, fazemos questão da exclusividade quando nos negamos a combinar caronas alternadas com os vizinhos, preferimos gastar mais e usufruir do conforto a andar de ônibus ou metrô (até porque esses meios de transporte não têm a qualidade que merecemos). Mas podemos mudar. Podemos aprender a caminhar e exigir que as empresas de transporte coletivo nos dêem mais dignidade; esquecer do carro durante a semana e consumir menos combustível, economizar pedágio, ganhar mais amigos que desejem melhorar as condições do trânsito. Tenho certeza de que, quando isto acontecer, as montadoras baixarão seus preços, o governo diminuirá os impostos, a Petrobras oferecerá bônus para quem andar de carro e os pedágios passarão a dar recibo sem que tenhamos de pedir.
Leia matéria sobre os motoqueiros: Acidentes levam 1500 motoqueiros aos hospitais por ano.
http://www.diariosp.com.br/saopaulo/?editoria=16&id=214725
Concursos públicos
De vez em quando as instituições oficiais decidem promover concursos públicos para admissão de novos funcionários. É o que está acontecendo agora com o Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Uma das exigências para se inscrever, além do recolhimento da taxa de inscrição (BB: R$ 38,00 e Caixa: R$ 25,00), é que os candidatos tenham no mínimo o segundo grau completo. Com isso eles poderão disputar as vagas de Escriturário ou Técnico Bancário, respectivamente, para receber – quando e se forem convocados – salários que ficam pouco acima dos mil reais.Um grupo de jovens interessadas nessa oportunidade me procurou querendo aulas sobre as matérias consideradas nos testes: Língua Portuguesa, Matemática, Conhecimentos Básicos de Informática, Atualidades e Conhecimentos Bancários. A Caixa preferiu dar ênfase às Noções de Ética ao invés de exigir que o candidato esteja atualizado em relação aos fatos do dia-a-dia.
Por que eu? Bem, acharam que eu possuía qualificações suficientes para ensinar alguma coisa. Na verdade havia certa má intenção por trás de tudo: a indicação havia partido de minha esposa – cheia de esperança –, no intuito de me convencer a prestar os tais concursos e conquistar um emprego estável, ainda que soubesse que eu morreria de tédio se tivesse que trabalhar num banco.
A primeira coisa que fiz foi procurar saber quanto eu precisaria ensinar. Comecei pelo que me pareceu mais fácil: atualidades. — Vocês lêem jornais? – perguntei com ingenuidade. Uma delas respondeu que sim, mas explicou em seguida que se referia a um tablóide semanal que circula em nosso pequeno município. Estava a par de todas as fofocas e acompanhava o horóscopo e a programação das novelas regularmente. No mais, lembravam-se vagamente daquilo que aprenderam na escola. E seus “conhecimentos básicos de informática” eram limitados à comunicação em salas de bate-papo e navegação na internet, desde que conhecessem o endereço de destino previamente.
Pensei em começar com Língua Portuguesa, relembrando as regras de acentuação e ortografia, já que o vocabulário das meninas era “tipo assim” meio limitado. A reação foi imediata: “— Você tá tirando com a nossa cara, né?”. “Verbos abundantes” lhes parecia uma expressão chula. Se eu ousasse mencionar coisas simples como pleonasmo, cacófato, prosopopéia, ênclise e outras, certamente seria linchado. Então, para não perder nosso precioso tempo, achei melhor consultar as perguntas que costumam ser feitas nesses testes.
Nos trechos que encontrei havia palavras que raramente são aplicadas no vocabulário coloquial, tais como vicejar, fenecer, apriorístico, cingir, para citar poucas. Talvez exijam esse conhecimento para o caso de uma visita de nosso letrado presidente a uma dessas instituições... É pá nóis sabê, purquê o país que não sabe falá ta morto.
Não é absurdo termos um presidente que orgulhosamente se declara semi-analfabeto enquanto as instituições a ele subordinadas aplicam esses disparates? Penso que isso faria Rui Barbosa se revirar no túmulo de tanta vontade de voltar para repetir um de seus pensamentos mais famosos:
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.” (Senado Federal, RJ. Obras Completas, Rui Barbosa. v. 41, t. 3, 1914, p. 86)
3/03/2006
Novos problemas, velhas soluções
Defendo a teoria de que envelhecemos de acordo com a quantidade e intensidade de situações ruins que enfrentamos. Os estudos indicam que a longevidade do brasileiro aumentou nas últimas décadas, elevando a expectativa de vida dos homens para mais de setenta anos. O que isso quer dizer? Temos uma condição de vida melhor que nossos antecedentes? Algumas observações me fazem crer que conseguimos estender a velhice, mas, também, porque ela começa mais cedo. Apesar do dito popular sobre a fase dos “enta” (40 em diante), o homem começa a envelhecer de fato quando atinge a casa dos trinta.Seja por força das dificuldades financeiras ou dos costumes, o homem passou a se casar mais tarde, exceto quando a circunstância – ou o pai da menina grávida – o obriga a fazê-lo precocemente. Em geral, os homens esperam a maturidade emocional e a independência econômica para tomar tal decisão, além de quererem aproveitar a vida e curtir tudo que têm direito enquanto têm energia sobrando. Quando se tornam maridos já entraram na terceira década, ou estão muito próximos dela.
A paternidade vem algum tempo depois. Farão de tudo para planejá-la, construindo projetos para o casal durante os primeiros cinco anos, a menos que sejam surpreendidos por um “acidente”, para o qual acabarão escolhendo um nome mais tarde.
A gravidez, portanto, se acontecer inesperadamente, pode ser um fator determinante no envelhecimento precoce do homem. Nesse caso, logo virão os primeiros cabelos brancos (ou a queda deles), as marcas de expressão, as olheiras, as preocupações: fraldas, remédios, médicos ou mudanças no plano de saúde, roupas, material escolar, novas mensalidades...
O homem, enfim, ficará orgulhoso por ter alcançado a maturidade que tanto lhe cobraram, mas de vez em quando sentirá falta daquela alegria que lhe era tão peculiar quando ia ao estádio com os amigos ou saboreava aquela cerveja no happy-hour ou depois de um joguinho no meio da semana. Ainda assim, enquanto isso durar, ele não se dará conta de que o processo de envelhecimento já começou. Isso só começará a pesar por volta dos 35, quando sentir que carrega um volume maior no abdômen, e estará menos vaidoso, quase desleixado, e preguiçoso.
É nessa fase que o homem começa a se sentir um profissional veterano, pois se vê cercado de novatos que tomaram o lugar dos colegas mais velhos. É o primeiro sintoma evidente da morte profissional, embora muitos não o percebam. Homens que chegam a essa idade começam a ser enterrados vivos para o mercado de trabalho, a despeito de sua experiência e de seu potencial produtivo.
É preciso prestar atenção e notar que de repente todos os seus colegas são mais jovens que você, e o chefe, que antes se mostrava inseguro na sua presença, passou a olhá-lo de forma estranha, com aquele ar de “você será o próximo”. Em suma, mesmo que o espelho não diga isto, os outros já o vêem velho.
O tempo voa sem que você note até que os filhos comecem a pedir para dirigir o carro. “Só uma volta no quarteirão, pai.” Daí para uma descidinha até o litoral é um pulo! Não dá para assimilar a velhice. Na verdade, ninguém dirá que você está envelhecendo. Dirão que você está ficando chato!
Não importa o que os outros façam a você, por pior que seja, a partir de uma determinada idade, a culpa de tudo passa a ser sua. Sempre.
Você pode estar velho mesmo não sabendo. Antigamente dizia-se que as pessoas de mais idade eram mais sábias. Hoje não, parece que ninguém mais usa essa palavra, “sabedoria”. Não duvido que haja quem pense que isto é um departamento de biblioteca. “Puxa, moço, não sei informar isso, não. Já perguntou lá na sabedoria?”
Sei que corro um risco enorme por ter nascido no milênio passado. Para alguns é como se eu fosse uma múmia saída de escavações arqueológicas. Mas gostaria de mostrar que naquele tempo cultivávamos valores que nos ajudavam a ter uma vida melhor. A educação e o conhecimento eram apenas dois deles. Éramos mais criativos até quando inventávamos nossos próprios brinquedos. Nada era eletrônico, poucas coisas precisavam vir prontas, por isso tínhamos que pensar mais. E isso não nos aborrecia! Ao contrário, sentíamos um prazer enorme em poder criar alguma coisa, cada um a sua maneira, com seu toque pessoal. As diferenças provocavam trocas e debates, intercâmbio, integração, descobertas. Tudo com pouquíssimo ou nenhum dinheiro.
Hoje se pode comprar qualquer coisa, inclusive um diploma. Mas, isto pode ser assunto para outro capítulo. O foco de agora é a velhice, ou melhor, a rabugice que deixamos aflorar tão cedo porque nossas frustrações são tantas que acabam por roubar toda a jovialidade sem a menor cerimônia.
De certa forma, foi a ganância que sufocou os valores que hoje nos faltam. Dinheiro é o que vale, acima de tudo, principalmente para as grandes empresas. E na rota do “quanto mais, melhor”, qualidade passou a ser quesito de luxo e, portanto, supérfluo. Que me condenem as operadoras de telefonia e os bancos se eu estiver exagerando.
Esses grupos foram os grandes responsáveis pela absorção dos universitários que, sem nenhuma experiência de vida ou profissional, buscam uma oportunidade de trabalho. Oferecendo a eles um salário equivalente à mensalidade escolar, sem esconder que a regra é torná-los dependentes do emprego, os fazem decorar perguntas e respostas padronizadas e os submetem a uma espécie de “lobotomia” transformando-os em autômatos falhos, incapazes de pensar e buscar soluções racionais para os problemas que lhes são apresentados. Esses jovens entram para o mercado de trabalho aceitando qualquer quantia que complemente suas mesadas, sujeitando-se de maneira burra a todas as formas de exploração. Não sabem exatamente o que estão fazendo, são marionetes do sistema que enriquece seus patrões, no entanto, julgam-se mais inteligentes que o resto da humanidade e declaram, em seu abreviado dialeto, e sem se importar com as conseqüências que causam aos outros, que “o computador errou”, não eles.
Nós, os velhos, seremos responsabilizados também por isto, pois não conseguimos transmitir a esta geração o que é “chato demais” para ser aprendido: valores como o respeito pelo próximo, a excelência no atendimento aos clientes, as regras de nosso idioma, o senso de responsabilidade, o patriotismo, a cidadania. Quisemos dar a eles mais liberdade e o direito de serem “autênticos”; apagar as lembranças de matérias obrigatórias como Organização Social e Política Brasileira, Economia Doméstica, Música e Trabalhos Manuais, consideradas desnecessárias e tendenciosas, porque faziam parte do programa de ensino durante a ditadura, tão combatida.
Viva a democracia! Mas que ela seja consciente. Ninguém é contratado para prestar favores. A frase “vou ver o que posso fazer” não cabe numa atividade profissional. Cada um recebe o que lhe parece justo e suficiente para executar um serviço da melhor maneira que ele possa ser executado. Se os erros não podem ser evitados, devem ser corrigidos e compensados.
Não vivemos no Reino de Avilan, e a “Lei de Gerson” (Todos gostam de levar vantagem em tudo, certo?) nunca foi promulgada em qualquer instância. Os clientes continuam tendo razão, porque são eles quem pagam as contas. Todas. Até que as não deviam.
Ora, se a aposentadoria ficou mais distante porque, de acordo com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, “quem se aposenta cedo é vagabundo”; se, graças à qualidade de vida e novos recursos da medicina, o número de idosos vem aumentando no Brasil; se a quantidade de reclamações junto aos órgãos de proteção dos direitos dos consumidores vem crescendo a cada ano; se os lucros dos bancos são os mais altos do país, mesmo sem produzir coisa alguma, é inegável que alguma coisa está errada, apontando para a revisão de valores.
A solução pode estar na contratação de pessoas com mais experiência. Talvez assim, sentindo-se úteis, precisem de mais tempo para se tornar velhos rabugentos e, de quebra, ganhemos mais qualidade em troca daquilo pelo que pagamos. Afinal, quando um velho imita um jovem é chamado de ridículo, mas quando o inverso acontece, o jovem é, no máximo, chamado de “conservador”. Deu pra sacar a diferença?
